REPORTAGEM ESPECIAL
Aumenta o número de partos naturais em Uberlândia
Em abril, a taxa de cesáreas entre mulheres na primeira gestação chegou a 48,7% dos partos no Hospital Municipal; em 2011, a taxa era de 95%
Conscientização entre profissionais que atuam na rede municipal de saúde e mudanças na estrutura de atendimento às gestantes estão contribuindo para estimular o parto natural e humanizado em Uberlândia. Com essas ações, a Secretaria Municipal de Saúde está perto de reduzir o número de cesáreas para menos de 40% dos partos em mulheres na primeira gestação (primíparas), no Hospital e Maternidade Municipal de Uberlândia (HMM). No mês de abril deste ano, a taxa de cesáreas entre primíparas chegou a 48,7% dos partos realizados, enquanto que em 2011 a taxa era de 95%.
A Secretaria Municipal de Saúde está organizada em um conceito integrado de atenção à saúde da gestante nas unidades de atenção primária à saúde e no HMM. As ações que incentivam o parto natural (sempre que quando oportuno) fizeram com que a taxa de cesáreas no HMM fosse de 55% no ano de 2013, enquanto que nos hospitais particulares o índice chegasse a quase 80%. “O parto natural é mais seguro para mulher e para criança, não compromete o futuro reprodutivo da mulher com a repetição de cesáreas e ainda estimula o aleitamento materno e a recuperação rápida da gestante”, explica Almir Fontes, secretário municipal de Saúde.
Para garantir o acompanhamento das gestantes desde o pré-natal, a rede municipal de saúde conta com 64 equipes integradas e apoio estrutural para consultas e exames nas Unidades Básicas de Saúde (UBS), em Postos de Saúde da Família (PSFs), nas UAIs (Unidade de Atendimento Integrado) e nas unidades de média complexidade. Esse acompanhamento das gestantes na rede proporciona uma gestação mais saudável, com acesso próximo à residência e tem impacto nos índices de mortalidade materna e infantil.
Ações do Programa Saúde da Mulher
A atenção à saúde da mulher no município fez o número de pré-natal ultrapassar a mais de 13 mil consultas realizadas em 2013 e ampliar em seis mil o número de consultas em puericultura como estratégia de atendimento contínuo à mãe e à criança, desde o nascimento. Estão disponíveis para as gestantes, na rede municipal de saúde, desde exames de sorologia preconizados pelo Ministério da Saúde, pré-natal, monitoramento da gravidez, até palestras e oficinas com orientação para a gestante.
A psicóloga Luciana Martins Lopes, 27 anos, fez o pré-natal na UAI Martins e optou por fazer parto natural desde o momento que descobriu a gravidez. “Eu sentia medo da cesárea porque nunca havia feito nenhum procedimento cirúrgico, mas tive de fazê-lo na minha primeira gestação por conta de uma alteração nos batimentos cardíacos do bebê”, conta a psicóloga.
Na segunda gravidez o médico de Luciana indicou o parto natural e, segundo ela, a recuperação no pós-parto foi mais rápida e com menos dor. “Foi uma emoção diferente porque a mulher participa do procedimento, se sente mais presente no momento do nascimento do filho. Eu senti dor na hora do parto natural, mas, diferente da cesárea, eu não senti dor no pós-parto e fiquei mais disposta fisicamente a cuidar do meu filho”, conta a mãe.
Segundo a coordenadora do Programa Municipal de Saúde da Mulher, Bárbara Cunha Mello Lazarini, o acompanhamento médico é fundamental para avaliar o procedimento que será feito no nascimento da criança. “Com o parto natural, a mulher vai ter mais facilidade para fazer descer o leite, vai ter maior interação mãe bebê, além de o corpo voltar mais rapidamente ao normal. A cesárea é uma cirurgia salvadora, indicada por razões médicas, e não por escolha cômoda”, explica.
Formação profissional na rede
Com o objetivo de investir na formação dos profissionais e dar assistência mais qualificada às gestantes, foram ofertadas pelo município quatro vagas para residências médicas em obstetrícia e ginecologia no HMM, nas unidades básicas de baixa complexidade e nas integradas que atendem casos de média complexidade.
O objetivo dessa residência é também incentivar na rede o conceito do parto normal entre os médicos, evitando procedimentos cirúrgicos quando estes não são necessários. “Com um trabalho de conscientização, a mulher vai adotar por si só a conduta do parto normal, vai querer evitar a cirurgia, que só deve ser indicada em casos de risco à saúde e à vida do bebê ou da mãe. Ela vai entender o corpo dela e as vantagens de deixar a natureza e o corpo agirem. Ele [o corpo] está preparado para isso”, diz Bárbara Cunha.
Nova fase – humanização do parto
O município de Uberlândia já se prepara para nova etapa de trabalho com foco na saúde da mulher e no parto natural. A meta nos próximos meses é chegar a menos de 40% dos partos cesáreas em primíparas, conscientizando as gestantes dos benefícios em optar pelo parto natural.
Os dois próximos passos em andamento para alcançar a meta são a implantação do Programa de Humanização do Parto e a participação voluntária de mulheres (doulas) que oferecem auxílio físico e psicológico às gestantes na hora do parto, iniciativa em funcionamento já há 10 meses no HMM.
O programa de humanização do parto consiste em preparar a gestante para entender o funcionamento do próprio corpo, trabalhar o emocional da mãe e da família para a vivência da humanização do parto e a preparar o profissional para ser envolvido no novo modelo de atendimento humanizado. Atualmente o trabalho está na fase de levantamento de dados na rede básica primária, onde acontecem grupos de humanização de parto que buscam entender o comportamento das mães e dos médicos. “O parto humanizado prioriza o ser humano na rede de saúde, prepara a mulher, a família, os profissionais e a sociedade para compreender que o melhor para mãe e o bebê é o parto natural. Ninguém é contra a cesárea, mas ela deve ser indicada somente quando for necessário após a avaliação clínica”, diz Alessandra Araújo, apoiadora do programa de humanização do parto da Secretaria Municipal de Uberlândia.
Fernando Lopes
Saúde
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